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Não vou analisar os efeitos políticos da entrevista de José Sócrates ao Expresso. Teoricamente, eles serão nenhuns. Não se vislumbra, de imediato, lugar para ele nas instâncias politico-partidárias. Embora esquerda e direita tremam, cada um para o seu lado.Mas o seu efeito mediático foi gigante. E a omnipresença de Sócrates na esfera dos jornais, dos blogues e dos comentários não vai parar tão cedo. Geram-se enormes expectativas sobre o lançamento do livro depois de amanhã.Quero apenas deixar umas notas sobre a entrevista, ou melhor, sobre o resultado da entrevista:- Desde logo, o local: um restaurante. O facto de não ser num escritório, ou em casa, ou seja no território do entrevistado, transmite a primeira mensagem: liberdade. O cidadão do mundo em que José Sócrates se tornou.- A aparência: moderna e "casual". Tal como se apresentou mais tarde na entrevista a Herman José na RTP1. Uma imagem que, mais uma vez, transmite autonomia. Cores e padrões neutros, correctos.- O tom: casual, coloquial, a resvalar para o negligente. Aqui penso que resultou mais de uma não-edição propositada da entrevistadora do que a intenção do entrevistado. Reforça o tom intimista e, mais uma vez, a espontaneidade. Talvez tenha resultado num "excesso de posicionamento" de descomprometimento.Estes terão sido os pontos mais positivos da entrevista, do ponto de vista formal.Sobre a edição propriamente dita, ao optar pela "narrativa" em vez da fórmula pergunta-resposta, a entrevistadora criou algum caos na leitura e na interpretação. Ficou.me várias vezes a dúvida se algumas declarações resultaram de respostas incompletas ou de temas forçados pelo entrevistado.Creio que Sócrates beneficiou mais da entrevista televisiva com Herman José. Que também teve no sábado passado a melhor audiência de sempre.-
O jovem líder dos Lib Dem e agora vice-primeiro-ministro do governo britânico foi eleito ontem Comunicador do Ano nos reputados PR Week Awards.Clegg revelou-se uma estrela durante os debates na campanha eleitoral e conseguiu um resultado histórico para o seu partido. Discurso sólido, postura desafiante e imagem "fresca" valeram-lhe resultados exponenciais nas sondagens pós-debates.Claro que este é um prémio "póstumo". As actuais sondagens de popularidade não são as mais favoráveis a Nick. E esse é o grande desafio da comunicação política: combater o desgaste da imagem do poder.
[/caption]Gordon Brown está a viver um dos maiores pesadelos que um político em vésperas de eleições pode viver. Foi difundida uma conversa privada com o seu staff (creio que pela Sky News) e cuja novela podemos ver aqui.
É provável que este episódio não tenha uma influência decisiva nas votações. Nesta altura, quem não gosta de Brown tem mais motivos para alimentar ódios, quem já pretendia votar Labour não levará o desabafo a peito. Pelo menos, uma sondagem ontem do Sun (que o jornal, significtivamente, não publicou) revelou que a maioria dos ingleses não se sentiu especialmente incomodada com os comentários.Em termos de comunicação, o "Bigotgate" suscita duas questões que me interessam. A primeira, a divulgação de uma conversa completa e inequivocamente privada entre Brown e o seu staff, dentro do seu carro, com a porta fechada. O facto de o microfone ter ficado ligado não justifica, na minha opinião, que a estação de televisão tenha utilizado o que designo de verdadeiras "escutas ilegais".Há quem dirá que são de "interesse público", porque "revelam o verdadeiro carácter" e a hipocrisia de Brown. Hipócritas são aqueles que fingem acreditar que, como muito bem disse Vasco Campilho no twiiter, "não há ninguém que, nalgum momento, não tenha acenado a alguém enquanto entre-dentes lhe chamava de parvo". Isto não define o carácter de ninguém, muito menos um político desgastado, sob enorme stress, numa disputa eleitoral renhida.O segundo aspecto, e o que mais me interessa, é a "gestão da crise mediática" dos conselheiros de Gordon Brown. O pedido de desculpas público, a explicação dada numa entrevista à BBC, creio que se impunha. O caso foi demasiado exposto.A ida de Brown a casa da Sra. Duffy, para lhe dar explicações pessoalmente, e ainda se desculpar com o seu satff, foram, a meu ver, patéticas e absolutamente desnecessárias. Segundo as sondagens, os mesmos que acharam um escândalo o que ele disse da "bigotuda" senhora, acharam que Brown não estava a ser sincero (e acredito que não) e os que não lhe deram importância talvez se tenham sentido um pouco incomodados.O desvario mediático, levado aos extremos no Reino Unido (parece que a Sra. Duffy já tem um agente de relações públicas) leva ao desnorte da comunicação de crise. Estamos a criar políticos patetas e medrosos e uma opinião pública intoxicada, quando os desafios dos países e das populações nunca foram tão terríveis.
Dever ter sido sentido como um murro no estômago o discurso com que o mayor de Londres, Boris Johnson, brindou a assistência nos British Press Awards. "On behalf of all British politicians I have come tonight to convey our unconditional surrender."Aludindo a casos gerais e outros concretos da "guerra" entre política e media britânicos, Johnson desafia os jornalistas a tomarem conta da governação: "I come to you to propose, as a gesture of submission, that we change places".Num arremesso de ironia violenta, Boris transfere para os jornalistas as rédeas de um "país destroçado": "Because, quite frankly, our defeated, exhausted, broke, broken, brokeback Britain can wait no longer for the transfusion of probity you will bring."No final, glosando Platão (?) termina com uma frase "The Republic will never be properly governed, my dear Glaucon, until all the politicians are journalists and all the journalists are politicians". Esta analogia foi curiosamente aqui destacada a propósito de um artigo de José Adelino Faria.Mas isto é uma terra de costumes em lume brando, pequenas alegorias sem ofender ninguém.Seria sequer imaginável um discurso destes por um político em Portugal?O discurso completo de Boris Johnson aqui. (Créditos ao Buzzofias, que identificou este discurso).
[/caption]O debate ontem à noite entre dois candidatos à presidência do PSD foi revelador de como a comunicação é uma ciência complexa e de como hoje uma figura pública tem de saber navegar em várias águas.Paulo Rangel, que desceu à terra com a aura do "tribuno implacável" teve o mais duro embate até agora da sua curta vida política num meio e num formato bem distintos da redoma parlamentar. A televisão é implacável na imagem e o debate face-a-face exige capacidades de riposta, "bridging" e "fair-play" que Rangel claramente não domina.Passos Coelho demonstrou que a longa "rodagem", e certamente muito treino em "media delivery" são tão ou mais importantes que a mensagem. Coelho tem ainda uma evidente vantagem em termos de imagem (embora a extrema finura dos lábios lhe empreste um ar sempre contrito) e beneficia de incontestáveis dotes de timbre e colocação de voz.Mas, como disse Ricardo Costa, o que parece ser evidente em termos de opinião pública em geral (parece incontestável que Passos Coelho venceu o debate) é pouco relevante em termos dos resultados das directas. Aí, as qualidades de oratória e o discurso provocador poderão conquistar uma plateia que, à míngua de poder há tantos anos, decida apostar na truculência atrevida de Rangel. Porque na comunicação interna, o populismo também tem os seus resultados.A subscrição é anónima e gera, no máximo, um e-mail por dia.