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Lobbying em tempos de Covid-19

por Alda Telles, em 13.04.20

Nos Estados Unidos, terra do lobbying por excelência (e com características diferentes da representação de interesses profissional que se faz na Europa), os movimentos de lobistas não se fizeram esperar. Como em todos os países em estado de emergência, apenas podem funcionar as empresas designadas como prestadoras de bens e serviços essenciais. É pois um interesse legítimo procurar que determinado sector de actividade seja considerado essencial para as empresas poderem manter a sua operação. Estar ou não numa lista pode significar milhões de facturação e também de postos de trabalho.

A título de exemplo, e porque esta informação é pública, vejamos alguns dos interesses que têm sido representados junto das administrações do estado americano:

- O lóbi do imobiliário tentou convencer o governador de Nova Iorque (o agora famoso Andrew Cuomo) de que as pessoas poderiam ficar sem abrigo se o sector tiver de fechar (nomeadamente devido à impossibilidade de fazer visitas aos imóveis com os compradores).

- No Illinois, as empresas tentaram pressionar para que os serviços de manutenção de piscinas fossem reconhecidos como essenciais.

- Uma associação de campos de golfe distribuiu um argumentário aos seus membros para influenciarem os seus respectivos estados e localidades a deixarem os campos em funcionamento. Um dos argumentos é que o golfe oferece "imensos benefícios em tempos de crise".

Algumas empresas recorreram a lobistas com ligações à administração Trump para as ajudar a serem incluídas nas listas de sectores essenciais. Um gabinete de lobbying dirigido por um antigo "fundraiser" da campanha de Trump trabalhou para clientes na área das máquinas de lavar automáticas e no sector de seguros de habitação junto do ministério da administração interna (Homeland Security) que acabou por incluir na lista de sectores essenciais os serviços de máquinas automáticas de lavar e secar roupa, bem como todo o trabalho de notariado de apoio a serviços e transacções imobiliárias.

No caso da canábis, a maioria dos estados declarou a sua produção e comercialização essencial e incluiram o consumo para fins recreacionais (para além dos medicinais) porque se há negócio que os estados não conseguem parar são os negócios ilegais como o tráfico de droga.

Note-se que este trabalho de defesa de interesses empresariais e os respectivos documentos com argumentos que suportam essa defesa são objecto de "disclosure filling", isto é são declarados pelos lobistas e registados pelas administrações contactadas.

Por cá, enquanto a representação legítima de interesses continua por regulamentar, não sabemos exactamente o que andam as empresas a fazer junto do governo, dos deputados e das administrações para defenderem a sua actividade, com excepção de algum "lobbying público" através dos meios de comunicação social e que no essencial se limita a pedir ajuda financeira.

 

 

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publicado às 14:43

COMUNICAÇÃO INTERNA EM TEMPOS DE COVID

por Alda Telles, em 08.04.20

Uma aluna (sim, tenho uma aluna a ler o meu blog! :-) enviou-me a seguinte pergunta:

"Boa tarde professora! Como podemos classificar o tipo de comunicação feita pelas marcas como o Continente ou o Lidl, onde há um agradecimento feito aos funcionários das suas lojas com repercussões para o exterior? Podemos inserir este tipo de comunicação nos processos de Comunicação Interna?".

Eis um tema particularmente importante nesta crise. Sendo esta uma ameaça que afecta não apenas os clientes das empresas, mas todos os seus stakeholders, a atenção aos empregados assume uma relevância crítica. Diria mesmo que a comunicação interna deve estar no topo da lista das prioridades das empresas.

Antes de responder directamente à pergunta acima, convém recordar que as necessidades de comunicação com os empregados variam bastante de empresa para empresa e consoante o sector onde a empresa opera. Mas há um aspecto comum a todas: a necessidade de informação credível dos gestores para os empregados. As necessidades de informação vão desde a situação económica da empresa e o risco de perder o posto de trabalho, às várias medidas legislativas decretadas em estado de emergência, às medidas de segurança no trabalho para os que têm de continuar a trabalhar e, sempre que possível, o que vem a seguir e como vamos sair desta crise. Para além da informação, as pessoas esperam mensagens de compreensão e inspiração. O rápido esclarecimento de rumores ou notícias falsas é também fundamental.

Vários estudos demonstram que, em situação de crise, os trabalhadores confiam na comunicação interna como fonte principal de informação. É por isso fundamental que as empresas implementem, consoante a sua tipologia, mecanismos de comunicação eficaz e constante com os empregados. As plataformas possíveis são várias, desde a intranet a grupos de Whatsapp em empresas mais pequenas. Os meios podem ser simples mensagens informativas, videos, live streaming, partilha de links úteis, podcasts, etc. Num ambiente de incerteza, manter a ligação com a empresa, mesmo que remotamente, é fundamental para a saúde mental dos trabalhadores e, sobretudo, a percepção da empresa como socialmente responsável.

No caso das empresas que estão "na linha da frente", como a distribuição alimentar, as farmácias ou os transportes (para não falar dos profissionais de saúde ou do apoio social), os trabalhadores estão em situação particularmente frágil, pois estão impedidos de praticar o confinamento e assim estão menos protegidos, bem como as suas famílias. As empresas têm consciência de que estes trabalhadores merecem um reconhecimento e um incentivo especial. Há os casos referidos de insígnias que transformaram a sua comunicação comercial em agradecimento público aos seus trabalhadores. Outros, como é o caso do Pingo Doce, optaram por dar um prémio extra. Em qualquer dos casos, o reconhecimento é um dos principais factores motivacionais numa organização e, nesse sentido, os filmes referidos podem ser entendidos como parte integrante da comunicação interna, embora a sua exibição pública também afecte - em princípio, de forma positiva, a reputação da empresa junto dos outros stakeholders, incluindo os clientes.

 

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publicado às 14:27

Casual Friday

por Alda Telles, em 03.04.20

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E porque hoje é sexta (apesar de todos os dias agora me parecerem sexta-feira), deixo aqui uma nota mais ligeira.

Um excelente exercício de criatividade de um designer irlandês, Luke O’Reilly, para a marca Guiness. Note-se que a marca é alheia a esta criação, que foi desenvolvida no âmbito duma plataforma "One minute briefs", conforme se explica neste artigo da Marketeer.

Bom fim de semana. Em casa.

 

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publicado às 16:20

Agora que sabemos que o estado de emergência em Portugal foi, tal como esperado, prolongado, volto ao tema da economia comportamental.

Tal como tinha dito, a "behavioral economics" tem sido muito utilizada pelo governo do Reino Unido para desenvolver um conjunto de políticas públicas. Acontece que, desta vez, a aplicação do conceito de "nudge" para combater a pandemia ia tendo resultados desastrosos.

Numa primeira fase, o governo britânico baseou-se no conceito de "behavioral fatigue" para justificar a aplicação de medidas de confinamento muito ligeiras. A ideia é que, se as medidas forem aplicadas cedo demais, as pessoas vão cansar-se e existe o risco de começarem a transgredir exactamente no período mais crítico. Isso aconteceria por cansaço e porque sendo as medidas de confinamento eficazes geraria uma menor percepção do risco.

Daí que a primeira estratégia de Boris Johnson se tenha baseado na crença que seria impossível parar a disseminação do vírus e que a única solução passaria por desacelerar o progresso da doença até ser atingida - o mais rapidamente possível - a imunidade de grupo (por favor, não traduzam "herd immunity" por "imunidade de rebanho"!).

Ora, nem os cientistas comportamentais defenderam esta ideia. Reconheceram que a técnica das "nudges", pequenos incentivos que conduzem ao comportamento correcto, não funciona em situações de elevado risco de saúde pública. E cerca de 600 cientistas assinaram uma carta aberta ao governo pedindo a aplicação de medidas mais drásticas, capazes de gerar uma alteração radical do comportamento. Como sabemos, Boris Johnson acabou por inflectir na estratégia inicial.

Por cá, apesar da evolução da doença parecer estar relativamente controlada, o presidente e o governo acertaram um prolongamento do estado de emergência. E note-se que o primeiro ministro António Costa tem justificado esta medida precisamente com o argumento da "fadiga comportamental". O facto da população poder começar a perceber um risco diminuído e os efeitos psicológicos da quarentena podem provocar um sério retrocesso na progressão que estamos a conseguir.

#FiqueEmCasa

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publicado às 11:02

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Já saíram as primeiras estatísticas relativas ao consumo na semana em que foi declarada a pandemia do coronavírus. As compras de bens alimentares e produtos de higiene cresceram mais de 200 por cento face ao mesmo período do ano passado. Cá, como aparentemente no resto do mundo, o facto mais insólito foi a corrida ao papel higiénico.

Diz o barómetro da Nielsen que nos produtos de Higiene Pessoal e do Lar é o papel higiénico que regista o maior crescimento (acima dos 200%) mas lenços, rolos e guardanapos, produtos para roupa e loiça, limpeza do lar, higiene corporal, fraldas/toalhetes e cuidados de saúde também ultrapassam o dobro das vendas.

A primeira tentação é qualificar este comportamento de totalmente irracional. E, na verdade, é. Mas é um comportamento perfeitamente identificado pelas teorias do comportamento, incluindo comportamento do consumidor. Trata-se de um enviesamento na tomada de decisão. Neste caso, o enviesamento da escassez (scarcity bias), aliado a outro processo cognitivo, a influência social (social proof). Este último é fundamental para acelerar o enviesamento da escassez: se um produto se esgota, existirá alguma razão para tal e, mesmo que não compreenda exatamente o fenómeno, também vou comprar. Deriva daqui um aumento do valor do produto (infelizmente patente em produtos mais essenciais como o álcool ou as máscaras).

Ainda assim, fica por explicar a origem deste fenómeno. Alguém, nalgum ponto do globo, decidiu açambarcar papel higiénico, os outros viram e, pelos processos acima descritos, também desataram a açambarcar, o fenómeno tornou-se viral nas redes sociais e, graças à globalização, invadiu o mundo inteiro? Esta pode ser uma explicação, mas haverá razões mais profundas no nosso subconsciente. A compra desenfreada de papel higiénico (e outros produtos de higiene) pode reflectir a necessidade que temos de limpeza e ordem face aos caos e à ameaça do "bicho".

Ter-se-ão juntado aqui um conjunto de circunstâncias que deram origem ao estranho mistério da corrida ao papel higiénico.

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publicado às 12:40

Comunicação em tempos de Covid #6 As Nudges

por Alda Telles, em 30.03.20

A economia comportamental (behavioral economics) tem sido aplicada com especial utilidade na área das políticas públicas. O famoso livro "Nudge" de Richard Thaler (Nobel da Economia) e Cass Sustein inspirou vários governos, e em particular nos Estados Unidos e no Reino Unido, na delineação de pequenos "empurrões" (nudges), pequenos incentivos que levam as pessoas a agir (na direcção certa) sem se sentirem constrangidas a fazê-lo.  

A ideia por trás desta teoria é que a tomada de decisão é geralmente irracional e a maioria das nossas decisões são formadas através de um processo heurístico, o chamado "rule of thumb". Por isso, se eu for subtilmente incentivada a tomar uma determinada decisão, tomo-a sem sentir que estou a ser obrigada a fazê-lo.  A solução opt-in/opt-out é das mais utilizadas, sendo por cá um bom exemplo a doação de orgãos. De acordo com a legislação Portuguesa, todos somos considerados potenciais dadores, desde que não expressemos oposição à dádiva no Registo Nacional de Não Dadores. Esta pequena subtileza aumentou consideravelmente o número de dadores, mantendo a liberdade de escolha.

O caso dos sacos de plástico também nos é familiar: bastou imputar um pequeno custo aos sacos dos supermercados para a sua utilização (e desperdício) se reduzir significativamente. Os defensores da economia comportamental dizem que pequenos incentivos podem provocar profundas alterações no comportamento das pessoas.

Mas o que queria aqui falar hoje é da aplicação das nudges durante esta crise de coronavírus, no seu objectivo de nos ajudar a mudar os nossos comportamentos.

Uma das mais evidentes são os incentivos para lavarmos correctamente as mãos: a ideia de cantar os "parabéns a você" enquanto lavamos as mãos é uma forma de nos "empurrar" a fazê-lo e durante o tempo suficiente. Esta foi uma "nudge" criada pelo Serviço Nacional de Saúde britânico.

wash your hands.JPG

Também alguns supermercados utilizam marcas no chão para manter uma distância de segurança em relação ao balcão de atendimento. A minha versão preferida é, contudo, esta solução utilizada na Índia ;) (afinal, eles têm de proteger mil e quatrocentos milhões de pessoas!)

india circulos no chão.jpg

Fica claro que a ciência comportamental é um elemento importante na alteração de comportamentos e deve ser incorporada na comunicação estratégica desta crise. Contudo, ficou também claro que não é suficiente para combater a magnitude dos riscos que este surto comporta e levou a maioria dos países a declarar o estado de emergência, fazendo de alguns comportamentos força de lei.

Como em breve o país saberá se se mantém ou até se se reforça o estado de emergência, regressarei a este assunto.

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publicado às 17:23

Comunicação em tempos de Covid #5 KISS

por Alda Telles, em 29.03.20

Uma comunicação clara e eficaz é geralmente desejável. Em tempos de crise e de comunicação vital para as populações, essa regra deveria imperar.

Passadas algumas semanas, a expressão "distanciamento social" parece-nos perfeitamente familiar. No entanto, no início da crise, era um conceito totalmente novo e não necessariamente assimilável pela a generalidade da população. Ora, tendo em conta que o alvo da comunicação em plena crise sanitária é toda a população, a clareza das mensagens é fundamental.

Deixo aqui um guia que serve de orientação para a maioria das mensagens estratégicas. A regra é o famoso KISS (Keep it Simple, Stupid).

keep it simple.jpg

 

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publicado às 17:15

Comunicação em tempos de Covid #4

por Alda Telles, em 27.03.20
Partilho aqui este paper da Ipsos, com reflexões interessantes sobre o novo comportamento do consumidor face à crise e a forma como as marcas se podem posicionar neste contexto.
A mensagem principal é esta: "Numa era em que muitos consumidores estão cada vez mais
atentos às marcas, em vez das tradicionais instituições, como promotoras do progresso social e do bem-estar, a presente crise poderá acelerar esta tendência se as marcas mostrarem estar à altura da ocasião."

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publicado às 18:52

Comunicação em tempos de Covid #3

por Alda Telles, em 27.03.20

Nesta crise, muitas marcas estão a tentar manter-se relevantes e inspiradoras para os seus clientes. E fazem-no essencialmente de duas formas: com acções de responsabilidade social e com peças criativas que passam informação útil ou sublimam a vida em casa.

A primeira razão para querermos, nesta altura, que uma marca comunique connosco é sentirmos que ela está a participar no esforço colectivo. Aceitamos também conteúdos "quentes", relacionados com a situação em que vivemos, como conselhos, informação útil, posts inspiradores nas redes sociais, que são o melhor local para manter a proximidade com os consumidores.

Mas é fundamental que as acções e as mensagens sejam perfeitamente compatíveis com aquilo que as empresas fazem. Ligações forçadas serão rejeitadas.

Recolhi algumas acções de responsabilidade social de empresas em Portugal.

O Grupo Nabeiro produz  agora, na sua fábrica de fardas de trabalho, máscaras que são distribuídas pelos hospitais.

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A Galp pôs à disposição da DGS os mupis que tinha comprado para uma campanha comercial.

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No campo da publicidade, destaco o filme produzido pela Dove e pela equipa de brand entertainment da SIC. Um conteúdo adaptado ao momento e pertinente para a oferta da marca.

E ainda o filme da Ikea, mais uma vez pertinente e coerente com a marca.

Quem quiser partilhar outras iniciativas das marcas e das empresas, é bem-vind@.

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publicado às 16:03

As Nações Unidas lançaram um "brief" aberto aos criativos de todo o mundo, onde apela a soluções criativas de comunicação para apoiar a resposta global da ONU ao Covid-19.

O objectivo é destacar as medidas de saúde pública, prevenir a difusão de desinformação e comunicar com regiões que ainda podem evitar ou minimizar um surto epidémico.

Anunciado num documento que pode ser consultado aqui, o brief apela aos criativos mas também aos influenciadores, às marcas e aos meios de comunicação social.

A ideia é a de uma campanha que possa chegar a todas as geografias, todas as línguas e culturas: "We need help translating critical public-health messages – not just into different languages – but into different cultures, communities and platforms – reaching everyone, everywhere." As plataformas sugeridas são as redes sociais, digital, televisão, imprensa e rádio e são fornecidos diversos recursos para o desenvolvimento das campanhas.

Mãos à obra.

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publicado às 12:24

Comunicação em tempos de Covid #2

por Alda Telles, em 24.03.20

Ainda no campo da "desconstrução" dos logotipos, a McDonald's Brasil fechou as salas dos seus restaurantes e separou simbolicamente os arcos amarelos da marca, para reforçar a importância do isolamento e distanciamento social. A imagem, concretizada pela DPZ&T, foi concebida para ser divulgada nas redes sociais. 

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publicado às 18:45

Comunicação em tempos de Covid #1

por Alda Telles, em 24.03.20

Inicio aqui uma série dedicada à crise do Covid 19 nas suas expressões de comunicação. Uma mais sérias, outras de puro humor, o humor que funciona como oxigénio no sufoco em que vivemos.

Começo com um conjunto de brincadeiras com logotipos de grandes empresas, concebidas e partilhadas por um jovem designer, Jure Tovrljan. Tenho a certeza que ninguém levará a mal, nem mesmo as marcas utilizadas.

 

 

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publicado às 18:32

A Boeing e o exército lóbista

por Alda Telles, em 13.03.19

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Boeing 737 Max 8/Getty Images

 

A propósito da enorme crise de reputação que a Boeing enfrenta na sequência do acidente da Ethiopian Airlines, e cujas consequências totais ainda são imprevisíveis, deixo aqui nota da actividade de lobbying da construtora norte-americana.

De acordo com o site Politico, que cita os números oficiais de divulgação obrigatória pela legislação do lobby, a Boeing é um dos maiores utilizadores de lobbying em Washington, tendo gasto o ano passado mais de 15 milhões de dólares em serviços externos.

São cerca de 20 firmas de lobbying que trabalham actualmente para a Boeing, incluindo: Baker & McKenzie; Ballard Partners; CGCN Group; Cornerstone Government Affairs; Etherton and Associates; Gephardt Group; Jerry Costello Group; K&L Gates; Lamont Consulting Services; Lugar Hellmann Group; Mehlman Castagnetti Rosen & Thomas; Monument Advocacy; Norm Dicks & Associates; Roberti Global; S-3 Group; Shank Public Policy; Simmons & Russell Group; Stapleton & Associates; e Washington Council Ernst & Young. Um verdadeiro exército.

Com a crise instalada, é de crer que os números aumentarão, quer em firmas quer em orçamento, não só em Washington mas também - e sobretudo, diria eu - em Bruxelas.

De acordo com o site Lobbyfacts.eu, em Bruxelas a Boeing tem 6 lobistas declarados e custos de lobbying em 2018 estimados entre 200 mil e 300 mil euros. Números que irão certamente disparar e provavelmente regressar no mínimo aos valores de 2014, quando os custos de lobbying ultrapassavam os 400 mil euros. Um caso a acompanhar. 

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publicado às 17:23

Casual friday: The making of a press release

por Alda Telles, em 14.12.18

Este pequeno filme não precisa de explicação para quem já passou (passa) por "filmes" destes. Um dos pesadelos dos assessores de imprensa. 

Bom fim de semana

 

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publicado às 09:33

Salazar e as Public Relations

por Alda Telles, em 11.12.18

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Um interessantíssimo artigo académico de Vasco Ribeiro, professor e investigador na área da comunicação, revela-nos (mais) uma faceta de Salazar que abana os alicerces de uma imagem de humildade, sobriedade e, sobretudo, de proverbial "forretice".

De acordo com as pesquisas de Vasco Ribeiro, Salazar gastou "milhares de contos" com agências de relações públicas americanas (sempre referidas, à época, public relations, sem tradução). Esta actividade, desenvolvida por cinco agências diferentes para promover o país e sobretudo para branquear a imagem do ditador, durou mais de uma década, à razão de 50 mil dólares (8 mil contos!) por ano só em avenças. A valores actualizados, qualquer coisa próxima dos 420 mil euros anuais, a que se somavam as viagens e alojamento pagas a jornalistas e opinion makers.

Para além desta surpreendente aposta "despesista" em country branding , uma das notas mais importantes do estudo é a utilização estratégica do turismo como alavanca da promoção da imagem do país. Impressionante é também a modernidade e, diríamos, actualidade das acções de relações públicas desenvolvidas, sobretudo pela agência Peabody:

"No essencial, a estratégia desta empresa para colocar Portugal e o seu regime sob uma luz favorável da opinião pública norte -americana passou por: 1) criar laços de permanente informação junto de um vasto número de agências de turismo; 2) incrementar uma proactiva assessoria de imprensa; 3) desencadear o lançamento de dezenas de livros e guias de viagens sobre Portugal; 4) facilitar e apoiar a produção de filmes com narrativas positivas de Portugal; 5) organizar exposições, palestras e aulas; 6) convidar centenas de jornalistas, escritores, professores, investidores e outras personalidades a visitar o país; 7) apoiar tudo que pudesse originar boas mensagens sobre Portugal; e 8) efetuar estudos e inquéritos junto dos públicos -alvo."

 

O artigo de Vasco Ribeiro foi publicado em novembro na revista "Media e Jornalismo" da Faculdade de Ciências Sociais e Humanas da Universidade Nova, com edição de Estrela Serrano e Ana Margarida Barreto, e pode (deve) ser lido na íntegra aqui.

 
Imagem: A agência Peabody fez a promoção na imprensa norte-americana de “The Miracle of our Lady of Fatima” (1952), uma produção da Warner Brothers
 

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publicado às 11:03

Las Vegas e o fim de um slogan

por Alda Telles, em 11.10.18

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"What happens here, stays here" foi, até à data, um dos melhores slogans do marketing turístico do mundo, um dos mais reconhecidos e citados de sempre. Muitas vezes usado na forma "What happens in Vegas, stays in Vegas", a campanha nasceu em 2003, quando o departamento de turismo de Las Vegas pediu à agência R&R Partners para pensar num novo posicionamento do destino que fosse para além do jogo e dos casinos.

Um ano de pesquisa levou a agência a identificar uma ligação fundamental entre a marca Las Vegas e os seus visitantes: Liberdade. Liberdade de ser diferente do que se é em casa. Liberdade de fugir dos constrangimentos do dia a dia. E, claro, a garantia de o que lá acontece não é partilhado. Em lado nenhum.

Escreveu a agência no case study da campanha:

The emotional bond between Las Vegas and its customers was freedom. Freedom on two levels. Freedom to do things, see things, eat things, wear things, feel things. In short, the freedom to be someone we couldn't be at home. And freedom from whatever we wanted to leave behind in our daily lives. Just thinking about Vegas made the bad stuff go away. At that point the strategy became clear. Speak to that need. Make an indelible connection between Las Vegas and the freedom we all crave.

 

Este anúncio de 2009 é um inteligente exercício de humor, tornando a crise - que também atingiu Las Vegas - numa oportunidade para captar visitantes.

Fica claro que este princípio de liberdade de se ser o que se quiser tem associado um código de conduta. No filme abaixo, uma campanha de 2011, uma mulher "quebrou o código" tirando fotos e publicando no twitter. É por conseguinte ostracizada pelos amigos e por todos os que participam na festa. 

 

 

Escusado será dizer que este slogan, que tem resistido aos tempos, provavelmente encerra aqui o seu ciclo de vida.

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publicado às 15:58

Como (não) comunicamos

por Alda Telles, em 23.10.16

Uma série de inteligentes e inquietantes ilustrações do francês Jean Julien inspiradas no nosso quotidiano. A cada vez maior solidão da comunicação.

Seleccionei algumas para este post, mas podem ver mais aqui.

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(obrigada, semiose.net)

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publicado às 17:20

síndrome de estocolmo

por Alda Telles, em 17.10.16

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A Academia Sueca está provavelmente a viver uma das suas maiores crises de reputação.

Depois da polémica atribuição este ano a um autor mundialmente reconhecido como genial artista das canções, vê-se agora na embaraçosa situação de não ter, ao fim de quase uma semana, qualquer reacção do laureado.

Ao colocar o Nobel da Literatura num terreno, no mínimo, ambíguo, a Academia está agora a sofrer dessa ambiguidade. Quem sabe, porque o próprio Dylan se sentiu desconfortável com a atribuição.

Quer se aprove ou desaprove o critério "disruptivo" da nomeação, e qualquer que venha a ser o desfecho, o certo é que um dos mais prestigiados prémios mundiais da literatura tem a sua reputação abalada. Provavelmente, de forma irremediável.

Parafraseando o Nobel 2016, "A mistake is to commit a misunderstanding".

A Academia Sueca desistiu de tentar contactar diretamente com o músico Bob Dylan, a quem foi atribuído o Prémio Nobel da Literatura há quatro dias.

"Liguei e enviei 'emails' para os colaboradores mais próximos e recebi respostas muito simpáticas. Por agora, julgo que é o suficiente", explicou Sara Danius, secretária permanente da Academia, à rádio pública da Suécia.

Bob Dylan ainda não se pronunciou publicamente sobre esta homenagem. Na quinta-feira em que foi anunciada a atribuição do prémio, Dylan deu um concerto em Las Vegas, nos Estados Unidos, e não fez qualquer comentário sobre o sucedido. Não foi emitida também qualquer declaração oficial sobre o assunto.

Este silêncio pode antecipar uma ausência na cerimónia oficial de entrega do prémio, a 10 de dezembro, em Estocolomo. No entanto, Sara Danius tem uma visão diferente do assunto: "Tenho um pressentimento de que Bob Dylan poderá ir. Posso estar enganada e, claro, seria uma pena que não viesse, mas, de qualquer maneira, o prémio é dele e não nos podemos responsabilizar pelo que acontece agora. Se não quiser vir, não virá. Será uma grande festa na mesma".

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publicado às 18:05

 

Estive a ver o filme da campanha da Selecção Nacional para o Euro 2016. As principais críticas que se lêem na página de facebook da Federação Portuguesa de Futebol são à canção do hino. É um facto que está longe de ser uma ode motivacional e aspiracional, para além de ser a reciclagem de uma antiga balada de Pedro Abrunhosa, mais propensa a momentos melancólicos que a fúrias de vencer.

Mas, se esta opção musical revela uma preguiça criativa, o slogan da campanha "Não somos 11, somos 11 milhões" é o erro colossal de ignorar 5 milhões de alvos, os emigrantes, porque dá jeito o trocadilho com 11-11 milhões. Chamo a isto preguiça atrevida.

Não foi preciso um deputado reagir (“Torna-se quase uma desconsideração esquecer que a nação portuguesa não é apenas composta pelos 10 milhões que habitam dentro das nossas fronteiras, é muito mais vasta e inclui os cinco milhões que estão espalhados pelo mundo.") para rapidamente se perceber que muitos adeptos da Selecção Nacional se sentiram esquecidos. Esta "desconsideração" preguiçosa é tanto mais imprudente quanto se sabe que os estádios do Euro vão encher nos jogos de Portugal com adeptos emigrantes.

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Finalmente, um aspecto não menos relevante levantado por este blogue: não há diversidade racial nem sócio-económica nas personagens que encarnam os adeptos. De facto, temos um desfile de pessoas bonitas, urbanas, caucasianas e saudáveis que parecem terem sido aproveitadas de um casting ali ao lado para um anúncio de iogurte ou de telemóveis.

Será?

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publicado às 18:47

Trinta e um dias de Marcelo, o presidente-rei

por Alda Telles, em 08.04.16

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(11 de Março, Bairro do Cerco,Porto)

 

Trinta e um dias de Marcelo, (ex-)comentador e actual presidente. Breve primeiro balanço, com base em respostas que dei à Meios & Publicidade.

 

1. O presidente-spin doctor

 

Não sendo prática exclusiva do Presidente escolher jornalistas em detrimento de consultores de comunicação (basta ver as escolhas para os gabinetes ministeriais), a opção de Marcelo por três jornalistas para a assessoria de comunicação rompe com a tradição em Belém.

O caso concreto de Marcelo Rebelo de Sousa, grande comunicador e conhecedor profundo dos media, é contudo particular. É de crer que a estratégia está toda na sua cabeça e os assessores terão como função essencial criar o melhor palco possível para o desenvolvimento dessa estratégia. Não será por acaso que Marcelo foi buscar jornalistas de televisão, o meio onde ele cresceu como figura pública e onde sabe que (ainda) estão as melhores oportunidades de comunicar com o país real.

 

2. O presidente-rei

 

Marcelo adoptou a postura de um presidente-rei, parafraseando Fernando Pessoa. Percebeu que mesmo um regime semi-presidencialista pode acomodar os tiques de um regime presidencialista e até o conselho de estado parece querer evoluir para um senado.

Esta ampliação da função presidencial tem acolhimento na necessidade dos portugueses, num clima de crispação parlamentar e partidária, terem um referencial de estabilidade (e de afecto, sim!) no seu presidente. O estilo de comunicação faz a função evoluir para uma espécie de regime monárquico com tiques de presidencialismo. O “cão presidencial” remete-nos imediatamente para os “cães presidenciais” de Obama.  A que se junta um estilo muito próprio, entre o paternal e o descontraído, que transmite segurança e proximidade.

Convém também lembrar que os primeiros actos diplomáticos do presidente-rei foram as visitas ao Vaticano (com referências à bula papal que reconheceu o estado português) e ao Rei de Espanha. Dois elementos que fazem parte integrante do nosso imaginário monárquico. Estes dois actos deram o mote ao mandato.

 

  1. O presidente-comentador

 

Marcelo está habituado a opinar, por isso  o vemos e continuaremos a ver a comentar sobre os mais variados assuntos da vida nacional – desde o orçamento de estado à posição do governo sobre os presos políticos de Angola. A intervenção pública está-lhe no sangue e dificilmente abdicará do comentário.

O comentador não morreu, será que se salva a pátria?

 

 Créditos da foto: Pedro Correia/Global Imagens

 

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publicado às 14:44

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