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Humoristas de todo o mundo, uni-vos

por Alda Telles, em 15.12.13

Vou fazer uma coisa arriscadíssima: vou comentar o post da Estrela Serrano sobre os Gato Fedorento. A Estrela Serrano é uma investigadora e uma opinion maker que respeito, que sigo religiosamente e cujas análises considero quase sempre brilhantes e sempre interessantes. 

 

Este post a que me refiro é interessante. Procura enquadrar, dentro de uma matriz séria de análise, aquilo que muitos tiveram dificuldade em classificar, mas que se incluem no espírito do "ao que o jornalismo chegou"/ "já não se distingue o jornalismo do entretenimento".

 

Estrela Serrano enquadra o tema no âmbito do código deontológico dos jornalistas mas, sobretudo, dentro das expectativas de "confiança, credibilidade e autoridade" que a profissão de jornalista gera. 

 

Confesso que não consigo acompanhar esta análise. porque não considero o jornalismo uma profissão única nestes atributos. Esperamos da maioria dos profissionais confiança, credibilidade e autoridade. É neste ponto que a análise me incomoda, porque em nenhum momento do sketch estava à espera dessa demonstração por parte do jornalista que vi ali como um figurante "emprestado".

 

Não sendo estudiosa como a Estrela Serrano sobre o tema, permito-me pegar nas suas palavras: "Se um político entrevista outro político ou outra pessoa qualquer não passa a ser jornalista pelo facto de fazer perguntas. Mesmo que o palco dessa entrevista seja a televisão ou outro meio. Do mesmo modo,  nem todos os que escrevem num jornal são jornalistas."


Ora bem, diria que do mesmo modo, e seguindo a mesma lógica, quando o RGC [o nome é comprido e complicado, o que me parece um erro de palmatória para um nome profissional, mas adiante, usemos a sigla] entra num sketch humorístico não passa a ser humorista. Esta podia ser a reacção do sindicato dos humoristas, que certamente identificam profissionais do humor capazes de fazer um boneco muito melhor que o de RGC.

 

Diz depois Estrela Serrano: "Quando Ricardo Araújo Pereira (RAP) entrevistou os políticos na campanha eleitoral de 2009, não passou por isso a ser jornalista. Nessas entrevistas, o telespectador sabia que se tratava de um espaço de humor e ninguém ali alterou o seu estatuto: RAP continuou a ser o humorista que é e os políticos que convidou continuaram a ser o que são: políticos. A expectativa do telespectador  era a de que RAP fizesse humor com os políticos que entrevistava e ver como estes reagiriam e resistiriam. Ninguém ali foi ao engano."


[Reparo agora que RAP também é um péssimo nome para um humorista, o que leva a que invariavelmente seja referido pela sigla].


A minha pergunta é: e no sketch dos Gato Fedorento, alguém foi ao engano? Alguém estava à espera que RGC fizesse uma entrevista "séria" e real aos Gato Fedorento? Se o objectivo era simular uma "entrevista política", faz sentido a "brincadeira" (não interessa aqui se de bom ou mau gosto) ter um jornalista, do canal, a representar o seu papel. 


Não creio que haja aqui qualquer confusão de papéis. E se houve, foi para chegar à conclusão que nem para a novela "Sol de Inverno" RGC serviria como actor.

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publicado às 23:47

Mensagens


3 comentários

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De Nelson Soares a 16.12.2013 às 18:00

Boa tarde Alda,
Antes de mais, parabéns pelo blogue que sigo com razoável assiduidade (coisas do métier).
Francamente, gostava de perceber esta reacção epidérmica que o sketch dos Gato Fedorento anda a produzir nas mentes mais esclarecidas e (aparentemente) nas menos esclarecidas também. Nestas últimas incluo a Estrela Serrano, por razões que mais adiante justifico. Voltando ao sketch, além do gosto duvidoso e da mais do que evidente baixa de forma do quarteto, não vejo razão alguma de crítica: foi um ‘boneco’ tecnicamente bem elaborado, inofensivo e despretensioso. Ninguém, de facto, esperava outra coisa que não fosse um registo humorístico e, nesse particular, o RGC esteve francamente competente (até na entrevista que se seguiu).
Sobre a Estrela Serrano, “Bem prega frei Tomás” sobre a independência. Só por escandalosa conveniência, desonestidade intelectual, ou coisa que o valha, é que alguém que deambulou alegremente entre o jornalismo, a assessoria de imprensa (sobretudo com a personalidade que assessorou) e a carreira académica vem dizer que o jornalista tem de estar “acima de quaisquer interesses” e deve ser credor do público em matéria de rigor e isenção. Piada fraquinha, de alguém que faz doutrina política no seu blogue desde que tomou posse um governo que não é das suas preferências.
Bem-haja Alda e perdoe-me o desabafo. Estou farto de virgens ofendidas…
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De Alda Telles a 16.12.2013 às 18:48

Nelson, obrigada por ler o blog e comentar. O tema do meu post era uma reflexão sobre a conduta eventualmente errada por parte do jornalista RGC, e parti para o tema fazendo o contraponto com Estrela Serrano. O tema não era a Estrela Serrano, apenas "usei" o seu post para construir a minha posição.
Não tendo procuração para a defender, julgo que ES tem toda a autoridade para escrever sobre esta matéria. Penso também que há que distinguir entre o que se escreve num blog (há até vários jornalistas que o têm) e a isenção profissional.
Abraço
AT
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De Nelson Soares a 17.12.2013 às 10:24

Também não foi minha intenção desviar o foco, apenas rejeito lições de moral(ismo) em situações francamente benignas como as que estavam em apreço – e não vou bater mais no ceguinho, respeito o percurso profissional de cada um, mas tenho o direito de achar que determinadas opiniões não são minimamente consequentes com as acções.
Cumps.

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