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Os novos modelos de negócio que os orgãos de comunicação social desesperadamente procuram para enfrentar a crise apontam para a sua transformação em agências de info-comunicação. As actividades complementares como fonte de receita entram no universo das relações públicas. Será que a garantia de uma “chinese wall” entre informação e comunicação serão suficientes para não acabar de vez com a credibilidade dos media? Dois casos recentes são sinais preocupantes.Na passada semana, a agência noticiosa espanhola EFE anunciou uma nova linha de negócio. Na prática a venda de serviços de agências de comunicação. Segundo o site espanhol PR Noticias e citado pela Briefing, a EFE passa a oferecer às empresas a possibilidade de aparecer nos media através de eventos por elas patrocinados, onde a EFE se encarrega de produzir “peças jornalísticas”em que a imagem dos patrocinadores aparece “as vezes suficientes”. Estas “notícias” são depois vendidas às centenas de orgãos de comunicação social que recorrerem às produções da agência noticiosa.A imediata questão deontológica que se levanta foi antecipadamente acautelada pelo presidente da EFE Alex Grijelmo, que assegurou haver uma separação clara entre os serviços de informação e os serviços de comunicação, sem explicar exactamente como.As razões, está bom de ver, são a rentabilização dos meios humanos e materiais de que a agência dispõe e é “um exercício de responsabilidade económica, mas também de visão do futuro face às mudanças que vive o sector da comunicação social”, conforme se apressou a concordar o presidente da Dircom, a associação espanhola de directores de comunicação. Que se saiba, ainda não houve reacção da associação das agências de comunicação e relações públicas.No Sábado, o economista Ricardo Reis, analisa na sua coluna no i a crise dos jornais, essencialmente derivada da expansão da web e da impossibilidade de evitar o seu consumo de forma gratuita. Poucos são os leitores dispostos a pagar o verdadeiro valor (custo) da produção jornalística de qualidade.A análise é basicamente correcta e introduz o conceito de bem não-rival como perspectiva. Na analogia com a indústria discográfica (outro sector de bens não-rivais) as soluções propostas por Ricardo Reis são aquelas que, na realidade, temos vindo a assistir em jornais de referência, e em especial nos meios económicos: a promoção de actividades complementares como a organização de conferências e eventos, a produção de programas de televisão e… pois, a consultoria de imagem.Indaguei o professor sobre o conceito que estaria a aplicar ao termo “consultoria de imagem”. Apesar de ainda não ter recebido resposta, acredito que não esteja longe do modelo de negócio avistado pela EFE.Sinais preocupantes para ambos os sectores, o do jornalismo e o da consultoria de comunicação. Para lá das questões de ética e deontologia, são competências e marcas de duas profissões próximas mas distintas, que se vão certamente perder depois de tantos anos de luta pelo reconhecimento de cada uma.Adenda: O Prof Ricardo Reis respondeu à minha questão, via e-mail, e autorizou a publicação da sua resposta, que a seguir se transcreve ((Nota: Manteve-se a grafia original, obviamente digitada sem teclado português)
Concordo com tudo o que escreveu, e duvido que tenha muito a acrescentar. Existem concerteza conflitos eticos complicados, mas parece-me que nao sao completamente intransponiveis. Por exemplo, nos bancos de investimento na ultima decada tornou-se pratica algumas divisoes venderem produtos a clientes, outras servirem como intermediarios, e outras ainda fazerem investimentos em nome da empresa.Por exemplo, o mesmo banco por vezes esta a aconselhar duas empresas num processo de fusao, enquanto que outra divisao do banco serve como "broker"  na compra de accoes dessas empresas por parte de clientes com carteira no banco, e uma outra parte ainda gere a propria carteira deinvestimentos do banco que pode incluir as empresas em causa. As diferentes divisoes estao separadas, e existem uma serie de controlos internos para impedir que informacao privilegiada passe de uns paraoutros, enquanto que ao mesmo tempo podem usar alguma da expertise conjunta no mercado de financas e dividir custos fixos. Isto leva ocasionalmente a problemas serios e acusacoes de fraude que se provadasconduzema  punicoes severas, mas e' um sistema que, pior ou melhor, tem funcionado e trazido muitos lucros ao sistema financeiro.Para dar um exemplo aplicado aos jornais, imagine que a companhia que detem o jornal tinha uma divisao, num edificio separado da redaccao, mas com acesso ao arquivo do jornal, 'as suas fontes e contactos, 'a rede de distribuicao, e com pessoas com alguns anos de experiencia no jornal.Imagine entao uma grande empresa que quer preparar a sua assembleia-geral e em que o conselho de administracao quer comunicar a sua mensagem aos accionistas antes da reuniao. Posso ver o jornal avender os servicos de gerir essa comunicacao. Por outro lado, imagine uma empresa que quer distribuir um folheto gratis ou uma comunicacao que alcance muitos consumidores. Uma forma eficaz de o fazer e' mudar os canais de distribuicao dos jornais: alias assim acontece com os suplementos de publicidade do jornal. Mas, poprque nao a tal seccao do jornal ajudar a empresa a compor esse folheto, desde ajuda na composicao dos textos, assim como num arranjo grafico apelativo.

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publicado às 21:02

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6 comentários

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De Carlos Vargas a 24.05.2010 às 22:10

A iniciativa da EFE é para mim motivo de preocupação. Como é dito - e bem - as profissões de jornalista e de consultor de comunicação são bem diferenciadas, embora próximas.
E são 'métiers' distintos não só no plano técnico mas também no plano jurídico e deontológico. O jornalista está sujeito a um estratuto legal e um conjunto de obrigações que não são de modo algum impostas ao consultor. Por outroo lado, o consultor dispõe de uma margem de liberdade no tratamento da informação e no seu relacionamento com as fontes - e até de eventual associação a interesses económicos de clientes - que é rigorosamente vedada ao jornalista.
Misturar as duas coisas é o pior erro que se poderia fazer.
O caso da agência EFE é particularmente difícil de entender. O estatuto de uma agência de notícias como é por definição, neutro, abrangente e pluralista. Destina-se a informar.
Pelo contrário, a organização de um evento para promover uma marca, um negócio, um sector de actividade ou mesmo uma personalidade, é distinto. Destina-se a criar valor.
Como poderão conviver os dois tipos de serviço debaixo do mesmo tecto, da mesma estrutura de produção noticiosa ?
A mim, parece-me totalmente impossível. Além de parecer dificilmente enquadrável na actual legislação portuguesa.

Carlos Vargas
Jornalista
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De Alda Telles a 24.05.2010 às 22:23

Concordo. Os modelos de negócio dos jornais têm de facto de encontrar caminhos e saídas. As conferências e outros produtos de informação são algumas. Este despudor da EFE, se tem o mérito de ser explicitado (em vez de patrocínios encobertos que vamos vendo por aí), desvirtua também o modelo de agência noticiosa, Estou curiosa para ver os desenvolvimentos, em particular as reacções dos media a este novo negócio.
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De Carlos Esperança a 25.05.2010 às 22:28

Não é por acaso que as empresas de comunicação privadas procuram desacreditar as do Estado e insistem na sua privatização.
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De Alda Telles a 25.05.2010 às 22:39

Exacto, a EFE é uma sociedade anónima com capital maioritariamente público (como a "nossa Lusa", cooperativa com maioria do capital detido pelo estado).
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De Paulo Pinto Mascarenhas a 25.05.2010 às 23:35

Concordando com a Alda Telles e com o Carlos Vargas, não deixo de concordar com o Ricardo Reis. Confusos? Explico: um jornalista não pode fazer consultadoria de imagem ou comunicação. Mas um jornal pode ter um departamento, por exemplo de produtos especiais, como o i começou a fazer, separado da redacção, com um director próprio, que já foi jornalista e por isso tem esse know how - e, entre outros serviços oferecer essa consultadoria de imagem. A difusão da mensagem poderia ser feita a partir desses produtos especiais, suplementos do jornal - ou apenas difundidos nas empresas. Julgo que foi isto que Ricardo Reis quis dizer, mas posso obviamente estar enganado.
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De Alda Telles a 25.05.2010 às 23:49

É verdade que o "boom" das agências de comunicação nos anos 80 em Portugal teve origem em antigos jornalistas, quando a competência essencial era a assessoria mediática. É também verdade que muitos jornais têm departamentos, supostamente autónomos, de cariz comercial. Mas nunca se tinha chegado, que eu saiba, à venda de produtos jornalísticos (não suplementos temáticos comerciais) com componente de "assessoria de imagem". Aquilo que o Ricardo Reis e o Paulo P Mascarenhas falam é de uma divisão perfeita entre informação e assessoria de comunicação, o que não é de todo claro na proposta da EFE.
Mas penso que será cada vez mais difícil defender essas "chinese walls" que deram origem a casos graves de credibilidade, no remoto caso da Andersen, e estão agora a atingir as agências de rating. A ver vamos.

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